
Orientações da VII Conferência Geral
1. “Deixemo-nos modelar pelo Coração de
Jesus”
Apresentamos com alegria e esperança estas
“Orientações” nascidas dos trabalhos da VII
Conferência Geral, realizada em Varsóvia de 16 a 24
de Maio de 2006 sob o tema “Dehonianos em
missão ad gentes ” . Como SCJ
provenientes de diversas partes do mundo, nas quais
estamos presentes com o nosso carisma,
interrogámo-nos sobre o significado e o compromisso
do nosso ser em “missão ad gentes”.
O
Superior Geral dirigiu-nos um convite:
Deixemo-nos modelar pelo Coração de Jesus ; é
um convite que encontramos também na carta enviada à
Congregação por ocasião da Festa do Coração de Jesus
em 2006. A carta, intitulada “Um Coração
para a Missão” , pode ser considerada
como a parte inspiradora e estas Orientações uma
concretização para hoje.
Elas foram aprovadas por toda a assembleia, como
fruto do trabalho preparatório e da reflexão da
Conferência. Apresentamos algumas pistas para um
novo impulso ao compromisso missionário da
Congregação.
2. A Igreja existe para evangelizar (EN 14)
“A Missão universal da Igreja nasce da fé em
Jesus Cristo ” (RM 4). É Cristo e o seu
Evangelho que devemos anunciar e viver com
profundidade. O serviço à missão é constitutivo da
nossa Congregação, é a nossa resposta ao convite de
Cristo para colaborar na sua missão, fiéis à
inspiração do Fundador, para quem “a actividade
missionária é uma forma privilegiada do serviço
apostólico” (Cst 31).
O
P. Dehon sempre viu a missão como uma expansão do
Reino do Coração de Jesus, por isso a missão era
vista como imolação (= dom total de si). A missão é
um compromisso de amor.
Como Congregação internacional, sentimos o apelo à
missão universal da Igreja e nele queremos tomar
parte, a nível individual, das nossas comunidades e
Entidades (Províncias, Regiões, Distritos).
A missão para além das nossas fronteiras constitui
para todos uma dimensão fundamental da nossa
consagração.
3. “Queremos ver Jesus” (Jo 12,21)
O
seguimento de Jesus Cristo volta a ser o centro e o
ponto essencial da proposta missionária. Quando a RM
sublinha a especial urgência do “primeiro anúncio”
na situação actual do mundo, sem diminuir as outras
actividades missionárias (n. 33), reafirma a
prioridade absoluta do querigma. Hoje reconhecemos
que este anúncio querigmático tem uma dimensão
universal: supera os critérios geográficos, levando
o “primeiro anúncio” ao interior dos novos fenómenos,
presentes também em países de antiga tradição
cristã, como a urbanização e as migrações de massa;
e no interior dos sectores do mundo das
comunicações, da investigação científica, das
relações internacionais e noutras realidades que
constituem os modernos areópagos (cf. RM 33.37).
Como dehonianos, sentimos como particularmente
urgente voltar ao “primeiro anúncio” que vai ao
coração do Evangelho. É um regresso à mensagem
essencial de Jesus, um regresso ao seu Coração,
porque – como escrevia o P. Dehon – “o Coração
de Jesus, o amor de Jesus, é todo o Evangelho”
(OSp V, 447).
O
“primeiro anúncio” não é apenas questão de técnica,
mas uma proposta substancial e testemunhal de vida.
Implica, em quem o anuncia, uma relação íntima com a
Palavra de Deus que é a própria pessoa de Jesus.
Respondemos assim a tantos nossos irmãos que se
aproximam de nós com o mesmo pedido dos gregos:
“Queremos ver Jesus” (Jo 12,21).
“Este pedido ressoa ainda hoje, quando os nossos
contemporâneos pedem aos crentes não só que lhes
falem de Cristo, mas também que lho façam ver”
(NMI 16).
4. Paixão por Deus, pelo Reino, pelo outro
Neste contexto, a Conferência traçou um retrato do
missionário dehoniano, identificando-lhe alguns
aspectos característicos.
O
missionário dehoniano é uma pessoa que:
• fez a experiência de Deus Amor e responde a este
Amor com todo o seu coração;
• tem paixão por Deus, pelo Reino, pelo outro;
• é obediente à vontade de Deus ( Ecce Venio
), vive a contemplação, celebra a Palavra e a
Eucaristia, alimenta a sua fé, cresce no amor;
• vive a missão como obra da comunidade e sente a
comunhão fraterna como missão ( Sint Unum
);
• ama a Igreja local e acompanha o seu caminho,
privilegiando a formação e construção de comunidades
vivas e abertas ao testemunho;
• é capaz de incarnação, de inculturação solidária,
uma pessoa rica de compaixão, ao serviço da
reconciliação, perita no diálogo com o mundo, as
religiões, as culturas ( Adveniat Regnum Tuum
);
• toma parte nos sofrimentos do mundo,
especialmente dos mais pobres, sabe caminhar com
eles incarnando o ensinamento da doutrina social da
Igreja, vive o êxodo (de si e da sua cultura) para
levar autêntica liberdade ( Reparação );
• vive a missão como uma dimensão da sua vida, que
envolve toda a sua pessoa e as suas actividades: nos
serviços internos à Congregação, na missão ad
extra , em qualquer parte do mundo em que se
encontre, também quando prossegue a sua missão no
tempo de velhice, fragilidade ou doença (
Oblação ).
5. “O Espírito guia a missão” (RM
24): a animação missionária
Como Conferência Geral dissemos novamente que a
missão, obra do Espírito Santo e nossa, em cada
Entidade da Congregação, começa com uma boa animação
missionária. Também nos países de antiga tradição
cristã, é preciso “sair das sacristias” e
redescobrir o primado da missão.
Propomos que:
• Em cada Entidade haja um organismo para a
animação missionária (ou pelo menos uma pessoa
encarregada) que promova encontros dos nossos
missionários com as comunidades paroquiais e os
grupos de leigos, jornadas missionárias e outros
encontros de animação, colabore com a pastoral
juvenil e vocacional. Evite-se que as actividades
burocráticas ou os vários serviços (contentores,
etc.) substituam a animação missionária.
• Os missionários sejam mais envolvidos na animação
missionária, dando o seu testemunho e ajudando as
Igrejas locais a abrir-se à universalidade.
• As Entidades preparem e valorizem o regresso dos
missionários. Sejam particularmente acolhidos como
um dom precioso os missionários doentes, que apoiam
activamente a missão, com a oração e a oferta da
vida.
6. “Eis-me aqui, Senhor, enviai-me” (Is
6,8): a formação inicial, específica e permanente
Sentimos a urgência de formar as jovens gerações de
dehonianos para a missão.
Para isso, antes de mais, é preciso formar para:
• uma espiritualidade que ajude a descobrir o rosto
de Deus Amor (experiência querigmática) e faça da
procura da sua vontade um critério de vida;
• a vida comunitária, privilegiando o crescimento
da capacidade de diálogo, de disponibilidade, de
serviço;
• a dimensão missionária do nosso carisma: essa é
uma parte fundamental do nosso existir na Igreja;
• o conhecimento e respeito pela própria identidade
cultural e a inter-culturalidade, a comunhão
inter-provincial e o sentido de Congregação.
Além disso, assinalamos algumas propostas concretas:
• Apresentar a dimensão da missão ad gentes
desde a pastoral vocacional.
• Garantir que, durante o tempo de estudos, haja
uma exposição sistemática da missiologia.
• Manter os jovens em formação em estreito contacto
com a realidade missionária (missionários,
experiências, revistas missionárias) e com a
realidade da pobreza do mundo, educando para o
serviço dos pobres, também com experiências
concretas.
• Velar por um estilo de vida sóbrio e de partilha
e ensinar uma correcta gestão dos bens.
• Exigir o conhecimento de uma segunda língua antes
da conclusão da formação inicial (de preferência o
inglês, ou uma língua neolatina para os anglófonos),
favorecendo experiências suficientemente prolongadas
em comunidades SCJ de um outro país e a
possibilidade de um período de estágio missionário.
Enfim, para quem decide partir ou já está empenhado
numa missão:
• Que a Cúria Geral se torne um ponto de referência
para o intercâmbio de notícias quanto a possíveis
cursos de formação permanente e actualização (
aggiornamento ).
• Que cada Entidade assegure aos missionários que
partem uma adequada e sólida formação. Que se
promovam, aos vários níveis da Congregação,
iniciativas de formação permanente, valorizando quer
o estudo quer a experiência pessoal.
• Que se ofereça periodicamente aos missionários o
ano sabático, programando-o convenientemente.
7. “Dar da nossa pobreza”
(Puebla , 368):
coordenação e pessoal missionário
Face às mudanças que acontecem na nossa Congregação
e aos novos empenhos missionários, a Conferência
Geral acha necessário que o Conselho Geral coordenar
a gestão dos recursos humanos e económicos ao nível
da Congregação, sem criar novas estruturas e em
diálogo constante com as Entidades da Congregação.
A
Conferência Geral reconhece que, para realizar um
projecto comum de missão, é necessário que haja
pessoal disponível. Para isso, propõe-se que:
• Cada Entidade (mesmo as de fundação mais recente)
coloque os seus membros à disposição, com
generosidade e segundo as suas possibilidades para
um compromisso ad gentes , para além dos
horizontes da Província, Região ou Distrito. Que
cada confrade tenha a possibilidade de se manifestar
disponível para participar em projectos
missionários, com o discernimento e o acordo da
Entidade que o envia.
• O Governo Geral faça um levantamento dos
compromissos missionários que a Congregação tem e da
necessidade de pessoal neles existente. Poderá
recolher a disponibilidade dos candidatos, coordenar
a animação, a formação específica e permanente dos
missionários, promover e avaliar as iniciativas
missionárias.
8. O futuro está na missão : os
projectos missionários
A
VII Conferência Geral convida a olhar em frente,
para enfrentar o desafio da evangelização, a
situação da Congregação e a crescente necessidade de
se abrir à internacionalidade.
Sugere maior colaboração a nível de pessoal e maior
partilha dos recursos.
Para novas aberturas missionárias são
exigidos critérios de avaliação comuns, tendo em
conta a diversidade dos contextos geográficos, as
propostas que surgem e as exigências do plano global
da Congregação.
A
Conferência Geral identificou como orientações
para iniciar um novo projecto missionário :
• O novo projecto (quer ad intra , quer
ad extra ) responda a necessidades
concretas (sociais ou eclesiais) e seja fruto de um
envolvimento e amadurecimento a nível da(s)
Entidade(s), em diálogo com a Igreja local.
• Haja sempre o envolvimento da área geo-cultural
de referência.
• O projecto seja claro e realista, inclua um plano
inventário de pessoal e de fundos, quer para o seu
início quer para o seu desenvolvimento futuro.
• Se preveja, desde o início, a participação local,
procurando os recursos para o futuro no lugar
(pessoal, meios), adequando o estilo de vida
comunitária e as estruturas à realidade em que se se
insere.
• Se garantam presenças missionárias com, pelo
menos, três pessoas por comunidade.
Estude-se a possibilidade e a exequibilidade de
desenvolver a nossa presença de evangelização na
Ásia.
9. “Embora sendo muitos formamos um só
corpo” (1Cor 10,17) :
internacionalidade
A
experiência das recentes aberturas missionárias
confirma-nos no processo de valorização e promoção
de uma maior internacionalidade a todos os níveis,
assim como na colaboração necessária com outras
congregações e com as dioceses, unindo as forças
para uma acção evangelizadora mais incisiva.
Considera-se oportuno que:
• Se promovam e valorizem comunidades
internacionais (também de áreas geo-culturais
) para a formação dos nossos candidatos,
favorecendo o intercâmbio desde as etapas da
formação inicial, depois do noviciado.
• Nos tornemos disponíveis para a colaboração em
projectos inter-provinciais, solicitando o
intercâmbio de pessoal para serviços específicos
ad tempus .
• Se continue a reflexão a nível da Congregação
sobre estruturas adaptadas a acompanhar e gerir as
novas iniciativas missionárias e a situação de
internacionalidade crescente, ficando abertas também
à colaboração e actividade inter-congregacional.
10. “Todos os leigos são missionários em
razão do baptismo” (RM 71): participação laical
na missão
Toda a obra de evangelização exige a participação
dos leigos, não só como colaboradores, mas também
como sujeitos de evangelização e de animação
missionária. Muitos leigos manifestam
disponibilidade para partilhar com os dehonianos a
acção missionária, a sua fé e especificidade em
viver o carisma do P. Dehon, no espírito da
Família Dehoniana , também com a sua
competência e profissionalismo. Nesta Conferência
Geral eles pediram aos SCJ para os acompanhar e
apoiar a partir da espiritualidade dehoniana. Como
dehonianos somos chamados a acolhê-los e
valorizá-los, procurando formas de reciprocidade
desde da fase de projecto e respeitando a sua
autonomia. Nesta participação comum na missão,
preocupamo-nos em dar continuidade às experiências
missionárias.
Concretamente, para os dehonianos, trata-se de:
• Promover iniciativas nas quais os leigos sejam
protagonistas na evangelização e na promoção humana,
oferecendo-lhes a possibilidade de partilhar a nossa
acção missionária, abrindo-nos também para acolher
voluntários do exterior, por tempos mais ou menos
prolongados. Reconhecemos que os leigos enriquecem a
espiritualidade dehoniana com o seu contributo
específico e a sua autonomia.
• Assegurar aos leigos missionários que queiram
apoiar-se nas comunidades SCJ, um conhecimento da
espiritualidade dehoniana, um apoio espiritual, a
introdução na nova realidade cultural e eclesial.
• Pedir aos leigos que partilham a nossa missão
maturidade humana, seriedade profissional, fé cristã
vivida, atitudes de respeito, diálogo e capacidade
de trabalhar em conjunto.
• Valorizar também formas de colaboração com
organismos laicais que se dedicam ao serviço dos
mais pobres.
• Garantir uma adequada “cobertura social” aos
leigos que, vindos de outros países, trabalham como
voluntários nas nossas comunidades missionárias por
um tempo prolongado ou em vista de um compromisso
definitivo.
11. “ Há mais alegria em dar do que em
receber” (Act 20,35): o apoio económico às
missões
A
vida dos missionários e o anúncio do Evangelho
exigem meios simples e incarnação no contexto;
todavia, têm necessidade de solidariedade e apoio
económico.
Os recursos de que a missão tem necessidade para se
sustentar e se desenvolver devem ser fruto de:
-
Uma escolha de “auto-manutentação”
(auto-sustentação) procurada in loco
-
e da partilha da Congregação, segundo o
princípio evangélico da comunhão de bens.
A
solidariedade crescente no interior da Congregação
já é expressão de comunhão e fraternidade e vai-se
desenvolvendo no respeito pelo princípio de
subsidiariedade.
Em concreto a Conferência Geral destaca a
importância de:
• Gerir a economia das obras missionárias segundo
os princípios evangélicos, pondo no centro a pessoa,
contestando todo o materialismo e assumindo o estilo
da Caixa comum.
• Investir na formação dos ecónomos para as
comunidades e as Entidades.
• Preparar análises económicas, cuidadas por
confrades formados adequadamente para este serviço,
que saibam detectar e valorizar os possíveis
recursos locais, evitando a excessiva dependência da
ajuda exterior. O pedido de ajudas seja feito não
privadamente, mas pelas Entidades de referência.
• A boa gestão dos recursos económicos é
fundamental para a missão. É necessário fazer uma
correcta planificação e preparar orçamentos e
balanços, segundo os esquemas e os planos propostos
pela Congregação, também com a ajuda de leigos
competentes; isso facilitará a verificação do uso
dos bens, feita com transparência e partilha com
toda a comunidade.
• Promover projectos sociais sustentáveis, fruto de
programação comunitária; calcular os custos que a
comunidade assegura na gestão do projecto e
incluí-los na apresentação para o seu financiamento;
cuidar da relação com as ONG ou outros possíveis
entes financiadores.
• Fazer crescer o FAG ( Fundo de Ajuda Geral
), partilhando parte dos próprios recursos (por
exemplo, 1% das disponibilidades financeiras no
fecho de balanço) e parte de entradas
extraordinárias (por exemplo, doações, legados,
venda de imóveis…), para que possa suportar a
actividade missionária da Congregação.
• Promover laços directos entre uma ou mais
Entidades para projectos específicos ou
financiamento (“esponsorização”) de actividades,
dando uma oportuna informação ao Governo Geral e
privilegiando nestas intervenções o apoio à
formação.
• Fomentar o contacto com os benfeitores,
exprimindo-lhes reconhecimento e tornando-os
participantes dos nossos projectos com uma adequada
informação, para os envolver na solidariedade
missionária.
12. “Não temas, pequeno rebanho” (Lc 12,32)
A
Conferência Geral, com a confiança posta em Deus, o
grande Pastor que nos guia, encoraja a continuidade,
a renovação e o relance do compromisso missionário
da Congregação.
Pede que:
• se favoreça um plano comum missionário
segundo o espírito do “ nós Congregação
”;
• se desenvolva a presença missionária na Ásia como
escolha a acentuar;
• em cada iniciativa se unam estreitamente
evangelização, promoção humana, escolha dos pobres.
Impõe-se para todos nós a urgência de evangelizar,
de levar o Evangelho “até aos confins da terra”
(Act 1,8), sem esquecer a Europa e outros
países tradicionalmente cristãos que têm necessidade
de uma nova evangelização.
Estamos convencidos – como se lê em Vita
Consecrata 110 – que temos “não apenas uma
gloriosa história para celebrar, mas um futuro a
construir”. A missão é um dom de Deus e uma
urgência que queremos fazer nossa.
Como os Apóstolos depois da Ascensão de Cristo,
recolhemo-nos em oração “com Maria, a Mãe de
Jesus” (Act 1,14), para implorar o Espírito e
d'Ele obter força e coragem na missão ad gentes
(cf. RM 92).
Os participantes na VII Conferência Geral
Varsóvia, 24 de Maio de 2006
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