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Missão Dehoniana

O RELIGIOSO DEHONIANO DA AMÉRICA LATINA

Nas origens do cristianismo da América Latina temos a presença e a dedicação de muitos religiosos que fizeram da evangelização dos novos povos o sentido de suas vidas. Foram numerosos os que dedicaram toda a sua vida – e muitos de forma heróica – para conquistar para a fé de Cristo as terras de América Latina, entre os quais devemos recordar de modo particular S. Francisco Solano, S. Pedro Claver, S. Luís Beltrán e o Beato José de Anchieta.

 

 

Foram outros tempos e talvez outros os métodos de evangelização. Mas a vida consagrada esteve presente desde o início da evangelização com sua entrega e fidelidade ao Evangelho. A América Latina deve muito de sua fé a tantos e tantas consagrados/as que deram a sua vida a serviço do Evangelho. A maioria de seus nomes permanece no anonimato, mas continuar e completar sua obra hoje e no futuro é continuar uma história que é de Deus e que convoca a todos nós.

Temos que reconhecer também, com toda simplicidade e coragem, que a vida consagrada, na América Latina esteve por vezes unida a elementos que obscureceram a sua presença: falta de inculturação com a conseqüente imposição de mentalidades e estilos de outras latitudes, proximidade, em alguns casos , dos poderosos, mais transmissão de ritos e devoções do que da fé que adora a Deus em espírito e verdade, mais um grande esforço de boa vontade do que análise profunda, a partir do Evangelho para transformar a realidade em busca de um mundo mais justo e fraterno.

Contudo, devemos reconhecer a presença, em geral positiva,dos religiosos em toda a história da América Latina. Os frutos de seus trabalhos são visíveis em todos os lugares e durante estes já mais de 500 anos de história. É de justiça reconhecer a presença e o dinamismo de tantas pessoas consagradas que na América Latina dedicaram e ainda dedicam sua vida a missão evangelizadora. Podemos dizer com Paulo VI: “Encontramo-los, não raras vezes, na vanguarda da missão e enfrentando os mais graves riscos para a sua santidade e sua própria vida. Sim, é verdade, a Igreja lhes deve muito, muitíssimo” (EN 69).

Nós chegamos um pouco mais tarde, em 1888. Mas também já fizemos uma longa caminhada com a Igreja da América Latina, ao lado de tantos irmãos e irmãs consagrados/as.

Nos últimos anos, vários acontecimentos levaram os dehonianos da América Latina a refletir sobre o passado, o trabalho realizado e, principalmente a buscar novos caminhos de evangelização, juntamente com toda a Igreja da América Latina. Lembramos o centenário da Congregação, o centenário da vinda dos primeiros missionários à América Latina, o centenário da vinda dos nossos padres ao norte do Brasil e agora ao sul do Brasil. Aconteceram tantas coisas e foram muitas as oportunidades de reflexão e revisão, como a Conferência Geral de Brusque, o Seminário “Ir ao Povo”, no Chile, o Seminário Latinoamericano de Inculturação do Carisma Dehoniano, em Luján (Argentina), A Conferência Geral do Recife...

Devemos recordar ainda as reuniões anuais dos Superiores da América Latina, vários encontros de Formação Permanente, encontros de Pastoral Vocacional, encontros dos formadores, dos responsáveis por Justiça e Paz, etc. Temos ainda muita literatura (livros, revistas, folhetos), trabalhos realmente bons de nossas comissões de espiritualidade e outras, como também de vários de nossos religiosos (P. Primo Corbelli, P. Egídio Driedonkx). O Centro Generale Studi SCJ de Roma publicou todo o conteúdo  do Seminário de Luján (STD 42).

Temos já um longo caminho feito. Agora a Congregação nos convida a uma nova reflexão, em preparação ao próximo Capítulo Geral. A partir de nossas reflexões sobre o Padre Dehon, sobre a história da Congregação e, de modo especial, a partir de nossa história latinoamericana e da mística da solidariedade, somos levados a perguntar-nos como o Carisma e a Espiritualidade Dehoniana deveriam ser vivenciados na América Latina, ou seja, poderíamos tentar descobrir quem é o religioso dehoniano da América Latina.

 

A AMÉRICA LATINA PEDE-NOS UM NOVO MODO DE SER

 

A GS, que nos diz que Cristo amou com coração de homem, começa com estas palavras: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e daqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo, e nada há de verdadeiramente humano que não encontre eco em seu coração”.

Na linha da GS e a partir da nossa realidade latinoamericana, tentaremos perguntar-nos sobre a nossa fidelidade dinâmica à graça especial recebida por Padre Dehon. Cabe-nos, hoje, encarnar e personificar a misericórdia do Pai e fazer com que todos os homens e mulheres, sobretudo os que sofrem e vivem ameaçados, sintam o seu Deus muito próximo.

Com Leão Dehon somos convidados a voltar o nosso olhar para o Cristo transpassado na Cruz. Ele é o símbolo máximo da doação até o fim. “Crer no Cristo Crucificado significa crer que o amor está presente no mundo e que este amor é mais forte do que toda a espécie de mal em que o homem, a humanidade e o mundo estão envolvidos” (DM, 7).

Com Leão dehon, queremos também voltar o nosso olhar para a Igreja e o homem da América Latina. É uma questão de fidelidade. Leão Dehon tinha o olhar voltado para o Coração de Cristo e para a Igreja e os homens do seu tempo (sobretudo da França – onde vivia e exercia o seu apostolado). Nós dehonianos da América latina somos convidados a ter um olhar voltado para o Coração de Cristo e um olhar para este mundo concreto em que vivemos.

Assim, a contemplação de Cristo, para nós revelação e personificação do amor misericordioso do Pai, deve levar-nos, não mais, a tornar-nos estranhos neste mundo ferido pela injustiça, mas a mergulhar neste mundo de maneira empenhativa, sabendo, porém, que toda tentativa de transformação deste mundo ficará estéril ou pelo menos superficial e efêmera, até que o coração do mundo não tiver sido re-curado mediante a descoberta do Coração de nosso Deus.

Por isso, uma de nossas preocupações será levar aos homens e às mulheres da América Latina  a nossa espiritualidade centrada no Coração de Cristo. Não podemos ignorar o papel que o Magistério da Igreja sempre atribuíu à “devoção ao Sagrado Coração” na renovação espiritual e social, a qual não será alcançada sem tocar o coração do homem, se quisermos pensar  numa mudança de mentalidade e de sentimentos que leve à reconstrução de um autêntico relacionamento inspirado no mandamento do amor a Deus e ao próximo.

E nós, religiosos dehonianos da América Latina, não podemos esquecer que o momento atual é muito sensível à ligação entre evangelização e promoção humana, também por uma questão de fidelidade ao modo de ser e de agir do Padre Dehon. Além disso, o tema da libertação e da solidariedade fraterna guia as iniciativas da América Latina, inclusive fora do mundo cristão. Tudo isso parece indicar um caminho a  seguir, um estilo de vida e de pastoral. E nós, religiosos da América Latina, seremos aqueles homens que acreditam no amor, que acreditam realmente que o Coração de Cristo foi plasmado para chegar a ser o Coração do mundo, isto é, para recriar as atitudes profundas (que o coração reclama) de abertura, de encontro, de doação recíproca, que é o caminho da reconciliação e da comunhão.

Tudo isso será possível, na medida em que nós formos sinais evidentes das atitudes do Coração de Cristo. A misericórdia deverá tornar-se o critério fundamental e único na pregação, na administração dos sacramentos, no diálogo pessoal, na orientação da comunidade e, de modo especial, no Sacramento da Reconciliação. A misericórdia rejeita as sentenças sumárias e apressadas, não permite que rejeitemos um irmão/ã que se aproxima de nós, mesmo que ele (ela) tenha suas falhas ou esteja numa caminhada diferente da nossa.

A nós, dehonianos, pede-se, dia após dia, um suplemento de paciência e de compreensão, porque o nosso povo, sofrido e pecador, tem direito de receber de nós uma imagem transparente do Pai, o qual “faz nascer o sol sobre os bons e os maus e faz chover sobre os justos e os injustos” (Mt 5, 25).

Essa é a nossa maravilhosa vocação e é disso que têm necessidade – sobretudo hoje – aqueles que vêm a nós para buscar aquilo que o mundo não conhece e nem pode dar-lhes: o amor, o perdão, a reconciliação, a justiça e a misericórdia, a paz e a alegria.

Jesus continua a nos mandar “como ovelhas entre os lobos” (Mt 10, 16), mas proíbe-nos (não combina com a nossa espiritualidade) descer ao nível dos lobos e combater com as suas armas de poder, de força e de vingança. Nossa espiritualidade pede-nos total disponibilidade aos irmãos e solidariedade efetiva com nossos irmãos sofredores e pecadores. Mas, na luta pela justiça, na luta em favor dos pobres, a nossa força será a fraqueza da pobreza, da mansidão e do amor. Poderíamos dizer que o religioso dehoniano da América Latina vive em profundidade o abandono e a oblação, por uma vida de total disponibilidade e solidariedade; é um homem enamorado pela pobreza, que luta pela justiça com mansidão e amor.

É nessa maravilhosa aventura que o Senhor nos envolve. É sobre esse caminho que somos convidados a prosseguir, porque é o mesmo caminho que Jesus “manso e humilde” percorreu.

Nossa missão, na América Latina, será testemunhar a misericórdia para construir a comunidade, o Reino do Coração de Cristo, lá onde o amor e a justiça estão mais ausentes: lá onde se sentem mais as conseqüências do ódio, da injustiça e da opressão.

 

UM MODO DE SER DEHONIANO QUE NOS LEVA A AGIR

 

A  partir das orientações apostólicas do Carisma Dehoniano, da realidade latinoamericana e das tendências da vida consagrada na América Latina, tentaremos entender melhor a nossa missão.

A consagração religiosa, enquanto tal, é já missão em relação aos homens. Ela tem por si mesma uma fecundidade apostólica. Como todo carisma, também o nosso carisma de profetas do amor de Cristo põe-nos a serviço da missão salvífica do povo de Deus, no mundo de hoje, lá onde nós vivemos (América Latina  > cf. LG 12 e Cst 27).

Parece-nos, por isso, conveniente retomar os principais aspectos de nossa espiritualidade SCJ, para saber de que maneira poderemos concretizar, em nossa vida de cada dia, nosso compromisso apostólico.

a) Um apostolado de amor e de reparação. Sabemos que a caraterística mais profunda do pecado é a falta de amor, que impede o nosso relacionamento com o Pai e com os irmãos.

Assim, entendemos a reparação, antes de tudo, como uma acolhida do Espírito do Amor (1 Ts 4, 8), como resposta ao amor de Cristo por nós, comunhão ao seu amor pelo Pai e pelos irmãos e, ainda, a cooperação com a sua obra redentora no mundo em que vivemos (cf Cst 23). Neste sentido, é necessário – na América Latina – associá-la estreitamente aos valores da libertação e da solidariedade que têm uma repercussão social muito forte e uma carga profética muito intensa sobre o nosso continente.

b) Um apostolado do Ecce Venio – da disponibilidade total. O Ecce Venio define a atitude fundamental de Cristo e deverá definir também a atitude fundamental de nossa vida; faz da obediência um ato de oblação, configura a nossa existência com a de Cristo, para a redenção do  mundo e para a glória do Pai (cf. Cst 58; Hb 10,7).

Lembramos ainda que o nosso povo (especialmente os pobres) é muito disponível e também sensível à atenção e à disponibilidade dos seus pastores. Além disso, a disponibilidade é absolutamente necessária para que possa haver solidariedade.

c) Apostolado do Sint Unum. Para  corresponder à nossa vocação, deixamo-nos invadir pelo amor de Cristo e atendemos ao seu pedido: “Pai, que todos sejam um” (Jo 17, 21 > cf. Cst 63).

Nossas comunidades tornar-se-ão autênticos “lares” de vida evangélica, especialmente pelo acolhimento, pela partilha e pela hospitalidade (não só com os de fora – também e em primeiro lugar – pela acolhida, partilha de vida e de bens, de fé, hospitalidade em relação aos irmãos de comunidade. Nossos irmãos de Congregação, de comunidade devem sentir que nós os acolhemos e amamos).

Este será o nosso testemunho numa América Latina com tantas divisões, explorações, sofrimentos, ausência de amor, de fraternidade, de partilha. Aqui fica mais claro que a nossa vida comunitária é já missão.

Ao ver nosso testemunho, nossos irmãos e irmãs latinoamericanos poderão crer no seu Deus e Pai; crer num Deus que os ama e está muito próximo deles, que sofre com eles, que caminha com eles. “Pai, que todos sejam um, para que o mundo creia que Tu me enviaste” (Jo 17, 21).

d) Um apotolado eucarístico.  “Por nossa celebração eucarística, unidos a toda a Igreja, na memória e na presença do Senhor, acolhemos Aquele que é a razão de nossa vida comum, Aquele que nos consagra a Deus e nos envia, sem cessar, pelas estradas do mundo, a serviço do Evangelho” (Cst 82).

Na adoração, intimamente ligada à celebração eucarística,  meditamos as riquezas deste mistério da nossa fé, para que a carne e o sangue de Cristo, alimento de vida eterna, possa penetrar em nós e transformar profundamente as nossas vidas.

Queremos, assim, corresponder também a uma exigência de nossa vocação reparadora e desejamos alcançar uma união mais profunda com o sacrifício de Cristo, para podermos ser, com Ele, os servidores da reconciliação dos homens entre si e com o Pai (cf. Cst 83).

Sabemos que a espiritualidade do Padre Dehon, principalmente sua espiritualidade reparadora, esteve sempre centralizada na Eucaristia. Essa é também o nosso ponto de partida e de chegada, nossa força, nosso alimento. No encontro com o amor de Cristo, na Eucaristia, acontecerá a transformação do nosso coração. Na Eucaristia nós somos transformados. Aos poucos, nosso coração será um coração novo, um coração aberto, semelhante ao Coração de Cristo. E a sua abertura se manifestará na silenciosa e discreta ajuda aos nossos irmãos; levar-nos-á a servir os irmãos, ao trabalho nas organizações de assistência, de promoção humana, de conscientização e de libertação.

A Eucaristia é a mensagem mais perigosa, mais revolucionária da Igreja. Aquele que entende a Eucaristia e, assim mesmo, decide tomar parte nela, não pode mais ficar parado. A Eucaristia nos compromete. Aqui Cristo deixou-nos toda a sua redenção (a obra de restauração do homem), e Ele mesmo quis ficar para esse encontro fraterno. Aqui nos tornamos irmãos, formamos comunidade porque, em Cristo, nos encontramos e nos tornamos um.

Na Eucaristia se forma o apóstolo do Coração de Jesus. Nós que participamos do banquete da vida eterna, em meio a nossos irmãos e irmãs latinoamericanos, precisamos perguntar-nos sobre as conseqüências desta  nossa participação, deste nosso encontro com Cristo, presença do amor misericordioso na Eucaristia.

É possível encontrar Cristo e não encontrar os irmãos? Nós que participamos do mesmo pão, podemos deixar alguém fora do banquete da vida, do banquete do amor? Que estilo de vida deve ter alguém que se diz profeta do amor e ministro da reconciliação, após o encontro com o Senhor  e os irmãos/ãs na Eucaristia?

 

e) Um apostolado solidário. A resposta às perguntas acima talvez seja uma solidariedade efetiva com os irmãos/ãs. “A exemplo de Cristo, também devemos viver em solidariedade efetiva com os homens. Sensíveis ao que, no mundo de hoje, constitui obstáculo ao amor do Senhor, queremos testemunhar que o esforço humano, para chegar a plenitude do Reino, deve ser incessantemente purificado e transfigurado pela Cruz e Ressurreição do Cristo” (Cst. 29).

A solidariedade será o desdobramento da vida de oblação, uma forma concreta de viver a nossa oblação no relacionamento com esse mundo em que vivemos e com os nossos irmãos latinoamericanos (sempre na e pela união à oblação de Cristo, presente na vida dos homens). Pensando em nossa realidade concreta, essa solidariedade significa presença, atenção, partilha, colaboração, participação, corresponsabilidade e comunhão de vida e de destino.

Nossa vida de oblação (disponibilidade na solidariedade e solidariedade na disponibilidade) será, para nós, o estímulo que nos manterá sempre ativos e interessados na recriação, na restauração do homem latinoamericano e do nosso continente, de toda a sociedade, das relações segundo o Coração de Cristo.

Leão Dehon queria construir o Reino do Coração de Cristo nas almas e nas sociedades. E, bem antes dele, Leão magno já dizia que Deus vem restaurar o homem, em sua misericórdia e bondade salvíficas. Deus quer restaurar, quer re-criar o homem, e isto porque é misericordioso. E essa misericórdia se revelou em Cristo que se encarnou, veio participar de nossa sorte, fez-se solidário conosco. E, hoje, nós somos chamados a ser essa encarnação do amor misericordioso para os nossos irmãos/ãs da América Latina.

Hoje, quando afirmamos que misericórdia é o novo nome do Coração de Cristo, quando afirmamos que, no Coração de Cristo, o amor misericordioso do Pai se torna objeto de nossa experiência, nós que decidimos jogar toda a nossa vida numa espiritualidade do Coração de Cristo, somos convidados a unir o nosso destino ao dele -  e, junto com Ele, ser presença da misericórdia do Pai para nossos irmãos todos, pricipalmente para aqueles que mais precisam: os marginalizados, os empobrecidos, os pecadores, os doentes, os índios, os negros, os desempregados, os analfabetos, todos os que sofrem, os que não encontram mais um sentido para a sua vida. Em todos eles, junto com Cristo, tentaremos reconstruir a imagem de Deus (o projeto original de Deus).

Aqui todas as nossas discussões teológicas tornam-se secundárias e vão adquirindo novo sentido certas palavras antigas, como amor, reparação, oblação, abandono, ecce venio, ecce ancilla, fiat, sint unum, profetas do amor, ministros da reconciliação, disponibilidade, hospitalidade, solidariedade...

 

f) O apostolado do “Adveniat Regnum Tuum. Pela nossa maneira de ser e de agir, pela nossa participação na construção da cidade terrestre e na edificação do Corpo de Cristo, devemos manifestar que é preciso procurar, antes de tudo, o Reino de Deus e a sua justiça” (Cst 38).

 

g) Um apostolado mariano. Maria, a Mãe de Jesus, está intimamente associada à vida e à obra redentora de seu Filho. Mãe da Igreja, por sua maternal intercessão, assiste a todos aqueles que, empenhados numa missão apostólica, trabalham para a regeneração dos homens (cf. LG 65). “Pelo seu ecce ancilla, estimula a nossa disponibilidade na fé e é modelo perfeito de nossa vida religiosa” (Cst 85).

Para ser fiéis à herança do Padre Dehon e ao povo latinoamericano, é preciso que Maria esteja fortemente presente em nossa vida e em nosso apostolado.

A Dives in Misericordia apresenta Maria como a Mãe da Misericórdia (DM 9). E, para nós, misericórdia é o novo nome e o nome mais apropriado para o Coração de Jesus, em nossos dias e na realidade da América Latina. João Paulo II fala da misericórdia (DM) como de um mistério que deve ser acolhido e que está aberto à participação. Parece-me que aqui poderemos reencontrar  a nossa vocação e missão na América Latina. E, nesta perspectiva, nossa vida e nosso apostolado deverão ser profundamente marianos, já que ela mostra de maneira luminosa o caráter cordial (cor) do acolhimento e da participação exigidos por este mistério (cf. DM 9).

 

UM AGIR DEHONIANO DECORRENTE DE NOSSO MODO DE SER

 

O apostolado do amor e da reparação, do ecce venio, do sint unum, eucarístico, solidário, do adveniat regnum tuum e mariano, nascido da essência mesma do Carisma Dehoniano, deverá informar toda a nossa ação apostólica na Igreja e no mundo (para nós, no mundo e na Igreja da América Latina).

A essa missão, dentro do espírito de amor e de oblação, pertencem a adoração eucarística, o ministério entre os pequenos e os humildes, entre os operários e os pobres, para anunciar-lhes a riqueza insondável que é Cristo, para sermos realmente solidários com eles e conduzi-los a uma libertação integral.

Junto com o Padre Dehon, a seu exemplo, ajudaremos os pobres, os pequenos e humildes, os operários a tomar em suas mãos o seu destino e lutar por uma libertação total (cf. Cst 31 e Bartolomeu Sorge, SJ, in “Incontro SCJ”, jan. 1978).

Com relação a este ministério, Padre Dehon sempre deu uma grande importância à formação do clero e dos religiosos. A atividade missionária foi para ele uma forma privilegiada de serviço apostólico. Isso parece importante também para nós. Para transformarmos a América Latina, talvez nós dehonianos devêssemos ajudar na formação e santificação do clero e dos religiosos/as para que sejam capazes de presidir essa transformação. A herança do Padre Dehon é também um convite muito claro a criar um verdadeiro espírito missionário e encontrar novos caminhos para as missões,  em nossos países da América Latina e como América Latina.

 

EM BUSCA DE UMA IDENTIDADE

 

Para traçar um “perfil” do religioso dehoniano da América Latina e “definir” o seu modo de agir, precisamos – além de uma séria reflexão sobre nós mesmos e nosso Carisma – levar em consideração as tendências da vida consagrada na América Latina.

Como início de reflexão e como provocação para um maior aprofundamento do tema (neste tempo em que estamos a caminho de um Capítulo Geral), parece-me  necessário lembrar que o nosso Carisma Dehoniano e as tendências da vida consagrada na América Latina pedem de nós:

1. Uma experiência de Deus mais profunda.

 

A busca intensa da experiência de Deus é uma tendência essencial hoje na vida religiosa. Fala-se em fé radical, dimensão contemplativa, experiência de Deus, vida carismática... São expressões, todas elas com o mesmo propósito:definir a vida religiosa como um projeto de vida baseado sobre a experiência de Deus e o seguimento radical de Cristo.

Esta era já uma das grandes preocupações do Padre Dehon em relação aos seus religiosos e é, hoje, uma das tendências muito fortes em terras da América Latina. Essa experiência de Deus será feita na solidão do claustro, mas também no ambiente, muitas vezes difícil, do mundo do trabalho, do sofrimento, das injustiças de nosso tempo, em nossas terras. Também no compromisso com os injustiçados do nosso tempo poderemos fazer uma profunda experiência de Deus. Talvez seja uma experiência parecida com a do Padre Dehon, uma experiência amarga de ausência: falta de amor, de justiça, de fraternidade, falta de Deus. Poderíamos chamá-la de experiência negativa, experiência de pecado, de morte. Mas, esta experiência, sem dúvida, nos marcará profundamente e nos levará, como levou o Padre Dehon, a descobrir novos caminhos de reparação, de restauração da face de Deus nos irmãos/ãs sofridos da América latina.

A oração terá aqui um papel muito importante. E supõe um esforço para que a oração chegue a converter-se em atitude de vida, de modo que oração e vida se enriqueçam mutuamente: oração que leve a comprometer-se na vida real, e vivência da realidade que exija momentos fortes de oração.

Além de recorrer à oração íntima e pessoal, parece necessário buscar, de forma especial, a oração comunitária como partilha da experiência de fé, como discernimento sobre a realidade, orando junto com os irmãos de Congregação e junto com o povo que queremos servir (cf. DP 727). Se quisermos prestar um serviço válido ao nosso povo, precisamos aprender, também, a rezar com  nosso povo. Isto porque somos chamados a estar presentes na vida do nosso povo, caminhar com eles, partilhar sua vida e destino, mas sempre como homens de Deus.

 

2. Uma comunidade mais fraterna. Padre Dehon insistia muito sobre a comunidade fraterna. Dizia que nossas comunidades precisam ser comunidades reparadoras. Por isso, insistia na perfeição da vida comunitária, principalmente da caridade em nossas comunidades religiosas.

Hoje, na América Latina, a vida consagrada procura dar ênfase ao relacionamento fraterno interpessoal, em que se valoriza a amizade, a sinceridade, a maturidade como base humana indispensável para uma convivência numa dimensão de fé, pois, quem chama é o Senhor. Busca-se um estilo de vida simples e acolhedor, com diálogo e participação.

Isso é válido para todos os religiosos mas, sobretudo, para nós que temos por modelo, como ponto de referência o Coração de Cristo, fonte da caridade. Só, assim, nossas comunidades serão comunidades reparadoras. E, então, cumpriremos melhor a nossa missão entre o povo que é muito sensível a esses valores.

 

3. Uma opção (amor) preferencial pelos pobres, inserção e abertura pastoral das obras. Os pobres foram, sem dúvida, os prediletos de Cristo e também do Padre Dehon. E, hoje, ao lado da abertura pastoral das obras, parece ser a tendência mais notável da vida consagrada na América Latina. De fato, os religiosos estão cada vez mais presentes nas periferias e nas regiões mais difíceis, nas missões entre os indígenas, num trabalho humilde e silencioso. É uma opção que não supõe a exclusão de ninguém, mas sim uma preferência e aproximação do pobre (cf. DP 733).

Tendo como ponto de referência a maneira de ser e agir do Padre Dehon e dos religiosos latinoamericanos, o religioso dehoniano da América Latina estará aberto a novas obras, exigidas pelas necessidades da Igreja e do povo, e está convidado a amar a todos, mas a amar os pobres com um amor  e uma dedicação preferenciais.

 

A NOSSA ESPIRITUALIDADE, NA AMÉRICA LATINA NOS LEVA A OPTAR POR UMA VIDA RELIGIOSA MAIS EVANGELIZADORA.

 

O Coração de Cristo que teve compaixão do povo e pôs-se a ensiná-lo com muita paciência (cf. Mc 6, 34) e a realidade latinoamericana parecem apontar para essa direção. E isso supõe, de nós, pelo menos três atitudes importantes:

1.    Uma consagração mais profunda. Intensificar, pelos meios mais convenientes, a vivência da consagração total e radical a Deus, que comporta dois aspectos inseparáveis e complementares: a entrega e reserva para Deus, generosa e total, e serviço à Igreja e a todos os irmãos/ãs (cf. DP 759).

2. Uma consagração como expressão de comunhão.  Fomentar, nas comunidades, a fraternidade, favorecendo, no seu interior, aquele relacionamento interpessoal que permita a integração e conduza a uma comunhão maior e melhor colaboração na missão (cf. DP 764).

Em nossas comunidades não podemos admitir divisões, ciúmes, intrigas, individualismos, e não pode haver gente com quem nunca se pode contar. Somos a Congregação do Coração de Cristo e precisamos evangelizar o povo através do nosso testemunho de fraternidade, de comunhão.

 

3. Missão mais comprometida.  Basta lembrar o que, há tanto tempo, Puebla nos pede. Lembramos alguns textos que nos parecem bastante claros.

“Incentivar os religiosos a atingirem, com a sua ação evangelizadora, os ambientes da cultura, da arte, da comunicação social, da promoção humana, a fim de darem a sua contribuição evangélica específica, de acordo com a sua vocação e situação peculiar na Igreja” (DP 770).

“Despertar a disponibilidade dos consagrados para assumirem, dentro da Igreja Particular, os postos de vanguarda evangelizadora, em fiel comunhão com os Pastores e com a sua comunidade religiosa, e na fidelidade ao Carisma de sua fundação” (DP 771).

A partir das orientações de Puebla (770), que parecem ser o eco das preocupações do Padre Dehon, e da disponibilidade que é tão própria de nossa Congregação, e de olhos abertos para as necessidades da Igreja  e do  povo, nosso caminho parece tornar-se claro e teremos muito trabalho pela frente. Diante da realidade que nos cerca, o nosso Carisma e nossa Espiritualidade tornar-se-ão muito exigentes e teremos muito mais do que uma simples devoçãozinha a propagar.

Em tudo isso, nós continuaremos sempre unidos à fonte, o Coração de Cristo; do Cristo que veio trazer fogo à terra e quer que ele arda. Nossa vocação tem sua origem no Coração de Cristo. Olhando para esse Coração, contemplando o Coração transpassado do Senhor, descobriremos nosso estilo de vida, nossa espiritulidade de evangelizadores.

Estaremos atentos ao nosso povo, porque o padre é o homem do povo, mas estaremos atentos, sobretudo e antes de tudo, ao Coração de Cristo porque, antes de sermos homens do povo e para sermos homens do povo, precisamos ser homens que modelaram o seu coração segundo o Coração de Cristo.

A nossa missão precisa ser em favor do homem latinoamericano, mas precisa partir da fonte (o Coração de Jesus) e a ela voltar, realizando a fecundidade apostólica que tem sua origem na água e no sangue que brotam do lado de Cristo.

Roma, 18 de maio de 2002.

P. Francisco Sehnem, scj

 

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