É mais do que problema. É o dom da vida no seu nascedouro usurpado
das mãos de Deus. No Salmo 36,10, rezamos a Javé: “a fonte da vida
está em ti”. Costuma-se chamar o aborto de “interrupção da vida
indesejada”. Vejo, nesse eufemismo, uma expressão ofensiva Àquele
que é a fonte da vida. Pode-se desejar que a gravidez não ocorra,
por justo motivo, quando se faz planejamento familiar. Mas, o casal
não querer ter filho, por egoísmo ou comodismo não são motivos
justos. Evitá-lo com uso dos conhecidos “métodos seguros” fere a
dignidade e a santidade da união conjugal. No entanto, nada mais
grave do que a interrupção da gravidez, considerada literal
desrespeito ao mandamento divino: “não matar”. Chamar a gravidez de
“indesejada”, quando menos, é menoscabo dos planos do Criador. O que
pode acontecer é a gravidez “inesperada” que, assim mesmo, deve ser
motivo de ação de graças, como tantas coisas inesperadas da vida,
que nos fazem reconhecer que Deus “escreve certo por linhas tortas”.
Evidente, quando a gravidez se torna uma agressão no corpo da mulher
há procedimentos previstos no campo médico. A gravidez é que não
pode sofrer agressão gratuita.
Procura-se
justificar a legalização do aborto considerando-o meio eficaz para
controlar sua incidência e evitar os males por ele causados. Para
corroborar a necessidade do aborto busca-se apoio nas estatísticas:
mais de um milhão de abortos realizados na clandestinidade a cada
ano. Diz-se ainda: os abortos ilegais são responsáveis por um quarto
da mortalidade materna no Brasil. Em defesa da legalização do aborto
não faltam os que são sensíveis à situação dos pobres em relação aos
ricos. Estes estão em condições de usar métodos seguros e ter a seu
alcance hospitais com todo conforto e segurança; aqueles, por sua
vez, submetem-se a métodos contaminados e dolorosos com risco da
própria vida.
Diante dessa
deplorável realidade deve-se concluir: o aborto em si é sempre um
mal, fora ou dentro da lei. Quem defende sua legalização, levanta a
voz com ênfase: “Ninguém em sã consciência é a favor do aborto”. E
acrescenta sempre: “Legalizá-lo é a maneira certa de controlá-lo”.
Duas afirmações contraditórias. Proclamar que não há quem esteja a
favor do aborto, há de ser pela razão de que não há quem não veja
nele um mal. Por que, então, legalizá-lo? A “sã consciência” não
pode estar dos dois lados. Justifica-se também “a interrupção da
gravidez voluntária” com a categórica declaração: “A mulher é dona
do seu corpo”. Na verdade, ela o é em tantas coisas que não a deixam
ser, mas não o é para mutilá-lo ou destruí-lo. Esclareça-se ainda: o
embrião dentro dela não é o seu corpo, mas uma outra vida gerada por
ela, por isso não se pode falar em corpo estranho.
O Código Civil,
artigo 2º, confere personalidade civil somente a partir do
nascimento. O Código Penal, contudo, garante ao nascituro o direito
à vida desde a concepção. Nossa atual Constituição, artigo 5º,
declara, de sua parte, inviolável o direito à vida. Como, então,
justificar a promoção do plebiscito para o povo decidir se o
nascituro tem ou não direito à vida? Outro lado do problema: se o
aborto é uma questão de saúde pública – não há como negar – o certo
é o poder público empenhar-se para acabar com esse mal e não com a
vida do nascituro, legalizando o mal para que ele se torne um bem.
Insisto em dizer que o aborto é um mal em si (desrespeito ao direito
à vida) e não apenas pelas suas conseqüências, quando praticado na
ilegalidade. Como se combate o tráfico de drogas, deve-se fazer o
mesmo com as clínicas clandestinas que praticam o aborto e não
procurar descriminalizá-lo. O pobre, na situação de miséria, é
também questão de saúde pública. Quantos males sociais têm sua causa
na miséria! A preocupação primeira do poder público é extirpar a
miséria, protegendo os direitos sociais e não a de reduzir o número
de filhos nas famílias pobres. Sei que a questão do aborto (criminalizar
ou descriminalizar), permanecendo nos limites do moralismo e do
legalismo, não vai resolver o problema no seu aspecto social. É onde
falhamos todos, principalmente o poder público, quando não se
praticam medidas concretas para assegurar o direito à vida na fase
da gravidez da mulher: dar todo apoio médico, psicológico, de
assistência social e religiosa às gestantes; criar centros de
acolhimento da Mãe-Solteira para que as gestantes, por falta de
amparo não sejam induzidas ao aborto; multiplicar o número de
creches e outras medidas que signifiquem mais solidariedade que
assistencialismo.
Certos sociólogos,
economistas e outras cabeças festejarão a vitória da campanha do
aborto no Brasil, vendo nessa pseudo-solução o meio mais seguro para
o controle da explosão demográfica. Minha convicção é outra: o
Brasil não fica mais próspero com menos filhos nas famílias pobres.
O problema situa-se fundamentalmente no sistema econômico vigente
que distribui a renda de modo injusto. Lembro-me de uma intrigante
expressão do Papa Paulo VI: “Nos planos da Divina Providência, todo
filho vem ao mundo com seu pão debaixo do braço”. O que me permite
perguntar: quem é que lhe tira esse pão?
Dom Eduardo Koaik
Bispo emérito de Piracicaba
Fonte: CNBB