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ESTAR COM O POVO
Pe Nestor Eckert scj

 

 

“IR AO POVO” ou “ESTAR COM O POVO”?

            Na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus (auto-apelidados, posteriormente, como “Dehonianos”), tornou-se dito comum e quase grito de guerra: “Ir ao Povo”! Tanto assim, que até existe um revista (não acessível à maioria da população seja pelo preço mas, principalmente, pelos conteúdos seletos e urbanos nela tratados!) com o mesmo nome.

            Parece que nos é permitido questionar a expressão. Em latim, Pe. Dehon conclamava seus religiosos e seguidores a Prodire ad populum”. Como podemos traduzir adequadamente, sob o aspecto denotativo como conotativo, o significado de “prodire”? O dicionário de latim mais simples registra que “prodire” significa “avançar, ir para”.... É exatamente esta interpretação e tradução que nos deixa em situação de questionamento. Por quê? Porque se é preciso “ir ao povo” é sinal e declaração evidente de que não nos consideramos como sendo membros do povo. Estamos longe e distante do povo. Nós, religiosos e padres, aqui, normalmente, em cima de belas colinas e o povo “lá em baixo”. Numa atitude quase que de piedade e misericórdia, “vamos ao povo”. Vamos e voltamos. Isso é, no mínimo, covardia e traição.

            Por isso, ao menos no Brasil, parece ser bem mais adequado, fiel e justo, seguindo nas trilhas de Pe. Dehon, dizer: “ESTAR COM O POVO”.

            “Estar com o Povo” significa estar mesmo com o povo em suas situações existenciais mais concretas, duras e difíceis. E, somos chamados a estar com os “mais lascados, mais marginalizados, mais esquecidos, mais machucados, mais desfigurados, mais disformes à imagem e semelhança de Deus”. E como estamos longe desse “povo”. Não, definitivamente, não estamos com este povo. Preferimos estarmos afastados desta porção de povo para estarmos com quem tem dinheiro para ajudar-nos, carro para buscar-nos, condições de oferecer-nos um bom almoço, preparar um baita café vocacional freqüentado pelas elites e damas e amigas do padre etc.

            Sou agressivo? Parece-me que sim. Mas, Pe. Dehon, ao menos pelo que conheço de história da época, quando dizia “povo”, entendia aquela porção de gente (e grande porção, no período!) que sofria todas as conseqüências negativas da Revolução Industrial, à semelhança do que vem descrito na encíclica do Papa Leão XIII, em 15.5.1891, Rerum Novarum. E, este mesmo papa, quando Pe. Dehon perguntou a ele o que poderiam os religiosos e membros da Congregação fazer pela Igreja, deu como resposta a frase seca, objetiva, clara e precisa: “Preguem as minhas encíclicas”. E, hoje, muitos religiosos têm de envergonhar-se, dizendo que nunca leram a Rerum Novarum, nem conhecem seu contexto histórico e conteúdo. Como, então, pensar em termos de “ESTAR COM O POVO”?

            Além do mais, devemos ser muito honestos: ao ser eleito o atual governo geral da Congregação, esperavam-se atitudes concretas e orientações claras e precisas, objetivas e viáveis na área da Pastoral e Ação Social. Mas, até o momento este governo ainda não disse a que veio, ao menos, no campo social! Uma decepção!     

            E, os jovens seminaristas, que vieram entusiasmados com o ideal de colaborar e darem sua contribuição para que as situações econômicas, sócias e políticas fossem mais justas e humanas, mais dehonianas, vêem-se decepcionados pelo que assistem e decidem que é mais interessante e fácil migrar para instituições que oferecem microfones e câmeras e luzes e sentem despertar em si uma vocação muito mais de “artistas” e não tanto de servidores dos pobres e humildes, marginalizados, esfomeados e lascados, desempregados e separados de suas famílias, drogados e desiludidos.

            Parece que a reflexão maior que hoje somos chamados a fazer e o desafio de para ela encontrar uma resposta adequada seja à pergunta: Povo: quem é? Onde está? Quais são suas feições?” É uma gente machucada, fragilizada, desfigurada, muito longe de ser “à imagem e semelhança de Deus”. Mas, desta gente, honestamente falando, preferimos distância, chamando-os de “preguiçosos, vagabundos, que não querem trabalhar, malandros, aproveitadores, cachaceiros etc.”.  Mantemos distância do povo!

            “Estar com o Povo”, muito mais que “ir ao povo”, e depois retornar para nossos confortos, é um desafio! E temos medo de desafios! Não fomos educados e não nos educamos para isso! “Estar com o Povo”, “Estar com os pobres”, “Ser como pobres”, achamos que isso é coisa para loucos e bobos, tipo Francisco de Assis, mas que revolucionou a Igreja de seu tempo pela coerência e coragem.

            Quando teremos coragem e coerência, humildade e honestidade de “ESTAR COM O POVO”, sem nós nos servirmos dele como se fôssemos quase que uma “espécie superior”?

Pe Nestor Adolfo Eckert


 

 

© 2006-2007 - Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus
PORTAL DEHON BRASIL

Todos os artigos assinados são de responsabilidade de seus autores.


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