|
“IR AO POVO” ou “ESTAR
COM O POVO”?
Na Congregação dos Padres
do Sagrado Coração de Jesus (auto-apelidados,
posteriormente, como “Dehonianos”), tornou-se dito
comum e quase grito de guerra: “Ir ao Povo”!
Tanto assim, que até existe um revista (não
acessível à maioria da população seja pelo preço
mas, principalmente, pelos conteúdos seletos e
urbanos nela tratados!) com o mesmo nome.
Parece que
nos é permitido questionar a expressão. Em latim,
Pe. Dehon conclamava seus religiosos e seguidores a
“Prodire ad populum”. Como
podemos traduzir adequadamente, sob o aspecto
denotativo como conotativo, o significado de “prodire”?
O dicionário de latim mais simples registra que
“prodire” significa “avançar, ir para”....
É exatamente esta interpretação e tradução que nos
deixa em situação de questionamento. Por quê? Porque
se é preciso “ir ao povo” é sinal e declaração
evidente de que não nos consideramos como sendo
membros do povo. Estamos longe e distante do povo.
Nós, religiosos e padres, aqui, normalmente, em cima
de belas colinas e o povo “lá em baixo”. Numa
atitude quase que de piedade e misericórdia, “vamos
ao povo”. Vamos e voltamos. Isso é, no mínimo,
covardia e traição.
Por
isso, ao menos no Brasil, parece ser bem mais
adequado, fiel e justo, seguindo nas trilhas de Pe.
Dehon, dizer: “ESTAR
COM O POVO”.
“Estar com o Povo” significa estar mesmo com
o povo em suas situações existenciais mais
concretas, duras e difíceis. E, somos chamados a
estar com os “mais lascados, mais marginalizados,
mais esquecidos, mais machucados, mais desfigurados,
mais disformes à imagem e semelhança de Deus”. E
como estamos longe desse “povo”. Não,
definitivamente, não estamos com este povo.
Preferimos estarmos afastados desta porção de povo
para estarmos com quem tem dinheiro para ajudar-nos,
carro para buscar-nos, condições de oferecer-nos um
bom almoço, preparar um baita café vocacional
freqüentado pelas elites e damas e amigas do padre
etc.
Sou
agressivo? Parece-me que sim. Mas, Pe. Dehon, ao
menos pelo que conheço de história da época, quando
dizia “povo”, entendia aquela porção
de gente (e grande porção, no período!) que sofria
todas as conseqüências negativas da Revolução
Industrial, à semelhança do que vem descrito na
encíclica do Papa Leão XIII, em 15.5.1891, Rerum
Novarum. E, este mesmo papa, quando Pe. Dehon
perguntou a ele o que poderiam os religiosos e
membros da Congregação fazer pela Igreja, deu como
resposta a frase seca, objetiva, clara e precisa:
“Preguem as minhas encíclicas”. E,
hoje, muitos religiosos têm de envergonhar-se,
dizendo que nunca leram a Rerum Novarum, nem
conhecem seu contexto histórico e conteúdo. Como,
então, pensar em termos de
“ESTAR COM O POVO”?
Além do
mais, devemos ser muito honestos: ao ser eleito o
atual governo geral da Congregação, esperavam-se
atitudes concretas e orientações claras e precisas,
objetivas e viáveis na área da Pastoral e Ação
Social. Mas, até o momento este governo ainda não
disse a que veio, ao menos, no campo social! Uma
decepção!
E, os
jovens seminaristas, que vieram entusiasmados com o
ideal de colaborar e darem sua contribuição para que
as situações econômicas, sócias e políticas fossem
mais justas e humanas, mais dehonianas, vêem-se
decepcionados pelo que assistem e decidem que é mais
interessante e fácil migrar para instituições que
oferecem microfones e câmeras e luzes e sentem
despertar em si uma vocação muito mais de “artistas”
e não tanto de servidores dos pobres e humildes,
marginalizados, esfomeados e lascados, desempregados
e separados de suas famílias, drogados e
desiludidos.
Parece que
a reflexão maior que hoje somos chamados a fazer e o
desafio de para ela encontrar uma resposta adequada
seja à pergunta: “Povo: quem é?
Onde está? Quais são suas feições?” É uma gente
machucada, fragilizada, desfigurada, muito longe de
ser “à imagem e semelhança de Deus”. Mas, desta
gente, honestamente falando, preferimos distância,
chamando-os de “preguiçosos, vagabundos, que não
querem trabalhar, malandros, aproveitadores,
cachaceiros etc.”. Mantemos distância do povo!
“Estar
com o Povo”, muito mais que “ir ao povo”, e
depois retornar para nossos confortos, é um desafio!
E temos medo de desafios! Não fomos educados e não
nos educamos para isso! “Estar com o Povo”, “Estar
com os pobres”, “Ser como pobres”, achamos que isso
é coisa para loucos e bobos, tipo Francisco de
Assis, mas que revolucionou a Igreja de seu tempo
pela coerência e coragem.
Quando
teremos coragem e coerência, humildade e honestidade
de “ESTAR COM O POVO”, sem nós nos
servirmos dele como se fôssemos quase que uma
“espécie superior”?
Pe Nestor Adolfo
Eckert
|