MISSIO CORDIS - Inicial

Seminário Pastoral Dehoniano
Missio Cordis

07-13 abril 2010

Brusque - Santa Catarina - Brasil

 

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Apresentação
 

Aclarar algumas premissas é útil e necessário:

  1. SEMINÁRIO

Para preparar um trabalho de “seminário”, é oportuno começar do mais básico que é a definição dos termos, não somente para entender-nos reciprocamente senão também para delimitar o alcance do nosso trabalho. A definição mais rápida do mesmo termo “seminário” encontramos na internet: “um seminário é uma reunião especializada de natureza técnica e acadêmica, cujo objetivo é realizar um estudo profundo de determinados materiais com um tratamento que requer uma interação entre os especialistas. Se consideram seminários aquelas reuniões que possuem essas  características, sempre que tenham um número mínimo de 50 participantes. O número de participantes é limitado em função do seu conhecimento da matéria.”

 Um seminário é um encontro no qual se semeiam ideias. É uma semeadura na qual todos são semeadores e todos recolhem frutos. Se busca superar a distinção entre expositor sábio que semeia e ouvintes que recolhem o que ele semeou. É uma trabalho em equipe, de investigação, sobre um tema específico. Isso exige, naturalmente, que cada um esteja adaptado ao trabalho e às normas básicas da metodologia proposta. É um processo dinâmico em busca de aprofundar o conhecimento e, se possível, dar um passo novo ao tema proposto. A principal característica é, então, a participação ativa de todos, cada um de acordo com as suas possibilidades e aptidões.

 Como não se trata de receber um proposta já feita, mas sim construí-la juntos, cada qual apresentará sua reflexão em um clima de diálogo. Cada unidade de trabalho se desenvolve em três módulos:

- a motivação inicial dos expositores abre o caminho e oferece pistas de compreensão, relação... a partir de uma reflexão escrita e apresentada a todos para ser analisada.

- no trabalho de grupo convergem as perguntas e soluções sobre problemas pendentes a ser aclarados. As equipes serão formadas em núcleos de acordo com a área de interesse  (Bíblia, Liturgia, Pastoral Urbana, Missão, Pastoral Social).

- a partilha em comum nosa pede capacidade de reconhecer o essencial, as relações, comparar, valorizar, definir, fundamentar, concluir, aplicar, sintetizar... desenvolver propostas. O seminário proporciona uma experiência de aprofundamento no grupo através de uma comunicação intensa (utilizando todas as linguagens e expressões disponíveis).

 

Como este seminário toma o título de “Missio Cordis”, a partir de outro seminário celebrado entre 9 e 14 de março de 2008, em Alfragide (Portugal), com o título de “Theologia Cordis”, podemos aproveitar a nossa definição de termo o que se disse na avaliação daquele mesmo seminário. Começamos com algumas propostas metodológicas:

- propor um seminário que tenha conversas e exposições, mas também  o intercâmbio e o diálogo. É fundamental o trabalho em pequenos grupos (oficinas), para aprofundar as exposições.

- que os expositores fiquem durante todo o seminário, desde o começo ao final, que busquem manter um vínculo entre uma exposição e outra. Pede-se aos relatores que entreguem seus escritos previamente.

- necessita-se um pequeno comitê que coordene as linhas mestras entre as diferentes conferências, que ponham em relevo os pontos norteadores ajudando no seguimento dos trabalhos.

- para um futuro congresso, preparar e estudar um instrumentum laboris para ser trabalhado no congresso. Colocar os materiais na internet.

- distribuir o trabalho em diversas áreas: bíblica, pastoral... mais do que por grupos linguísticos, organizar por grupos de interesse ou especialização.

 

 

  1. PASTORAL

 

Na América Latina o enfoque pastoral é quase imprescindível, mais ainda se considerarmos a proposta que as conferências gerais do episcopado nos propõem constantemente. O marco da última assembleia, de Aparecida, e seu respectivo documento final (DAp, são a natural fundamentação para este seminário, como também manifesta nosso logo.

Toda a vida do discípulo-missionário está projetada em Cristo Mestre, em função à meta que Ele mesmo nos indicou: “para que tenham vida”.

Algumas citações significativas:

“O projeto de Jesus é instaurar o Reino de seu Pai. Por isso, pede a seus discípulos: Proclamem que está chegando o Reino dos céus!” (Mt 10,7). Trata-se do Reino da vida. Porque a proposta de Jesus Cristo a nossos povos, o conteúdo fundamental desta missão, é a oferta de uma vida plena para todos...” (DAp 361).

 Evidentemente toda atividade pastoral e missionária da Igreja, deve deixar transparecer essa “atrativa oferta de uma vida mais digna”. Antes, de uma maneira muito bela, havia aclarado que o primeiro princípio cristão dizia que para ter vida é preciso dá-la.

A vida se acrescenta dando-a e se enfraquece no isolamento e na comodidade. De fato, os que mais desfrutam da vida são os que deixam a segurança da margem e se apaixonam na missão de comunicar vida aos demais. O Evangelho nos ajuda a descobrir que um cuidado enfermo da própria vida depõe contra a qualidade humana e cristã dessa mesma vida. Vive-se muito melhor quando temos liberdade interior para dá-la a todos: “Quem aprecia sua vida terrena, a perderá” (Jo 12,25). Aqui descobrimos outra lei  profunda da realidade: “ que a vida se alcança e amadurece à medida que se a entrega para dar vida aos outros. Isso é, definitivamente, a missão.” (DAp, 360).

 Esse seminário pastoral intitulado “Missio” assume plenamente o compromisso da grande missão continental, proclamada em Aparecida, na qual cada crente se transforma em discípulo-missionário. Para desenvolver a dimensão missionária da vida em Cristo, Aparecida afirma:

Esperamos um novo Pentecostes que nos livre do cansaço, da desilusão, da acomodação ao ambiente; esperamos uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança. Por isso, é imperioso assegurar calorosos espaços de oração comunitária que alimentem o fogo de um ardor incontido e tornem possível um atrativo testemunho de unidade “para que o mundo creia” (Jo 17,21)” (DAp 362).

 Com poucas pinceladas, numa linguagem provocativa, muito simbólica, já sentimos a urgência em “aterrissar” o documento na pastoral. Na avaliação do seminário Theologia Cordis se diz:

- notou-se a falta do aspecto pastoral. Voltar a pisar a terra apontando um trabalho mais concreto. Como podemos transmitir, na prática, esta teologia do coração, a nível pastoral em geral, na pastoral social, na liturgia e na evangelização?

 

 

  1. MISSIO

 

Temos que definir bem esta outra palavra-chave: a missão.

Fazem algumas décadas que vem-se buscando uma releitura teológica do termo “missão”, que aprofunde seu significado desde a compreensão de Deus da história, e que se dá a conhecer através dela. Como resultado, chegou-se a conclusão de que para definir a prática missionária da igreja (missiones ecclesiae) a que voltar-se à compreensão da Missio Dei, um Deus que está continuamente em missão, auto enviando-se ao mundo...

 A Igreja não é (ou não deve ser) um corpo “autônomo” da missão, senão formar parte da missão de Deus na história. Quem bem define essa concepção missiológica é David J. Bosch: “Na nova imagem da missão não é primordial uma atividade da Igreja, senão um atributo de Deus. Deus é um Deus missionário... Não é que a Igreja tenha a missão de salvação do mundo; essa missão é do Filho de Deus e do Espírito Santo que, por meio do Pai, atuam na Igreja... concebe-se a missão, então, como um movimento de Deus, orientado para o mundo; concebe-se a Igreja como um instrumento para essa missão... Existe a Igreja porque existe a missão, e não o contrário... participar da missão é participar do movimento do amor de Deus às pessoas, porque Deus é fonte de um amor que envia.

 Não podemos definir a Deus mais além de sua projeção na história. Como já desenvolveram amplamente as teologias latino-americanas, a história forma parte do significado  a partir do qual compreendemos e descrevemos a Deus. Um Deus por natureza “projetado” missionário. Não deveríamos falar que Deus tem um projeto ou uma missão, senão que Ele mesmo é, por natureza, “eregido” na história.

 A partir dessa perspectiva, torna-se relevante uma abordagem simbólica do nosso anúncio missionário, resgatando aquelas “mediações” históricas cuja carga significativa condensa nossas experiências do divino; as palavras e os gestos, as práticas que nos fazem compreender a Deus como Deus de amor, de justiça, de paz...

 Nesse sentido, teologia e missão se unem. Já na Bíblia, “a revelação não é uma mensagem sobrenatural que temos que crer, senão uma experiência que atesta e que converte-se em mensagem proclamada que quer oferecer aos ouvintes uma nova possibilidade de vida.

 A teologia, no lugar de ser uma “especialização” reservada a uns poucos, passa a ser de todos e todas àqueles e àquelas que têm uma experiência de fé. O caminho privilegiado para proclamar e celebrar esta experiência de fé e vida é a linguagem simbólica. Os símbolos não são somente meios expressivos de qualquer experiência humana, senão o que criam o mundo sendo instrumentos influenciadores numa maneira de ver as coisas e impô-las como verdade.

 Para os primeiros cristãos e cristãs fazer teologia era parte de sua vida cotidiana, expressão de adoração (doxologia) comunitária no seio da liturgia. Nas suas celebrações, carregadas de um forte conteúdo simbólico, eles refletiam sua vivência cotidiana. A linguagem do símbolo era a expressão da sua fé, não tinha como finalidade revelar um significado conceitual, senão fazê-los celebrar (em comum) o caminho até o Pai. Justamente na liturgia, teologia e missão se manifestavam unidas em um significativo e vital ato de identidade pessoal e comunitário, de maneira que toda a liturgia era mistagógica e conduzia ao centro (Kerygma) dos mistérios da fé.

 É interessante recuperar uma vez mais da avaliação do seminário Theologia Cordis:

- há uma necessidade de tratar mais diretamente com os símbolos e simbolismos. Nossas diferenças culturais afetam nossa compreensão: necessitamos dialogar a esse nível.

- recuperar o discurso devocional (devoção popular) e litúrgico na atualidade.

  

  1. CORDIS

 

Dizíamos que, na partilha da fé e na busca de perceber e discernir a realidade, os primeiros cristãos (mas também hoje muitas pequenas comunidades cristãs) construíram sua teologia. Havia um modo especial (uma metodologia característica) que definia esse “que fazer” teológico. A teologia é algo que fazia-se em comunidade e experimentava-se como comunhão de amor.

 Também hoje fica de pé essa opção metodológica de fazer teologia. Leonardo Boff define essa outra opção concreta de fazer teologia como theologia cordis: “A opção pela teologia como inteligência da fé supõe uma concepção da igreja como unidade dos fiéis (communitas fidelium). A outra opção da teologia como theologia cordis , pressupõem uma visão de Igreja como comunidade dos que amam”.

 Desde este seminário, tomamos essa perspectiva do “coração” como uma boa metodologia teológica (mesmo que possa soar estranho relacionar coração com o método). Podemos ver o coração como a interação amorosa e amistosa com as pessoas e o mundo. É também a dimensão essencial da comunidade de fé que tem “um só coração é uma só alma”; que partilha a comida e louva a Deus “com simplicidade de coração”.

 Além disso, para nós, dehonianos, oblatos do Coração de Jesus, a chave “Cordis” é como algo constitutivo do nosso carisma. Não só nossa teologia e nossa espiritualidade, senão a mesma missão e toda a vida são marcadas com esse selo. Temos só que especificar que esse “Cordis” deve referir-se, em primeira instância, ao Coração de Jesus, que é Missionário do Pai, e só depois, junto a Ele, representaria também nossos corações que associam-se ao mistério do seu amor reparador. Padre Dehon fará reiteradamente essa leitura cristocêntrica e cordicêntrica de toda a missão e de todo o Evangelho. “O Coração de Jesus é todo o Evangelho.”

 Na avaliação do seminário “Theologia Cordis” diz-se :

- em várias ocasiões, assinalou-se que, historicamente, na Igreja a inteligência prevalece sobre o coração e a afetividade (lamentavelmente isso aconteceu também nas próprias conferências deste seminário).

- recuperar a pedagogia do coração, como Jesus atuava na vida cotidiana, a sua amizade com os discípulos, sua cordialidade e atenção aos problemas... assim como Padre Dehon testemunhou e refletiu nos seus escritos.

- elaborar um estudo bíblico e interdisciplinar sobre o significado do coração, por meio das categorias atuais (uma proposta original).

- educação e pedagogia do coração na chave bíblica (Evangelho de João).

- aproveitar a “porta oriental” de gestos e símbolos, etc. Não esquecer essa dimensão.

  

  1. DEHONIANO

 

Por último, quase como uma assinatura, é importante remarcar que esse seminário é dehoniano, por que é organizado e levado a diante por dehonianos (as províncias SCJ da América) mas sobretudo por que se fundamenta na vida e na obra do Venerável Padre Dehon. A proposta dehoniana será facilmente encontrada em todos os temas nas três grandes etapas da missão: escuta, aprende e anuncia.

Como dinâmica de trabalho, no lugar de ter palestras magistrais sobre o padre Dehon, buscaremos uma reflexão partilhada (nos grupos e nos plenários) a partir de textos e de algumas seleções de textos dehonianos (caderninhos) e de outros recursos oferecidos em DVD.

Não vem ao caso se alargar aqui dando muitas explicações, já que é evidente a importância fundamental para nós de considerar tudo a partir do nosso carisma.

Apenas uma vez mais vale a pena relembrar as últimas considerações que nos dá a avaliação do seminário Theologia Cordis.

- os futuros encontros devem ter uma temática mais centrada e homogênea, devendo voltar às fontes mais dehonianas, raízes e tradições do pensamento do padre Dehon.

-incluir uma leitura dehoniana a partir, por exemplo, do tema encarnação e de uma aproximação à teologia dos afetos, ou pastoral.

-tomar um texto base do padre Dehon, por exemplo, as “Coroas de Amor”.

-continuar fazendo um estudo dos lemas dehonianos e reinterpretar a linguagem: oblação, reparação. Diálogo com a atualidade. Reflexão sobre os valores dehonianos atuais: encontrar caminhos mais concretos.

                                                       ***

Essas premissas foram muito simples e apuradas. Mais que motivações pessoais ou apresentação de uma “tese central e tranversal do seminário” me pareceu importante recolher as sugestões  do seminário anterior “Theologia  Cordis” e a provocação central do Documento de Aparecida.

Era importante também aclarar que o mesmo termo “Missio Cordis” encerra um objetivo e uma metodologia que são propostos para todos, para poder fazer nesses dias um caminho “sinodal” e chegar assim a uma meta comum.

A todos um fraterno desejo de que tenham um bom trabalho no seminário. In Corde Jesu.

Pe. Quinto Regazzoni, scj

(ver fontes das citações na versão em espanhol)

Download - Power Point de apresentação (espanhol)

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