3 de março de 2010

3 de março - Sobre as dores do Coração de Jesus - segunda meditação

Se um inimigo me tivesse amaldiçoado, teria suportado facilmente; mas tu, um amigo, meu condutor e meu companheiro, que partilhavas as minhas refeições de festa: nós vivíamos de acordo na casa de Deus (Sl 54, 13).

Primeiro Prelúdio. As ofensas dos amigos causam muito mais dor do que as dos estranhos.

Segundo Prelúdio. Senhor, se vos devo ajudar a espalhar o reino do vosso Coração, vinde primeiro reinar sem partilha no meu coração.

PRIMEIRO PONTO: As faltas das almas privilegiadas são mais sensíveis ao Coração de Jesus do que as das almas comuns. – Os pecados das pessoas que não conhecem Nosso Senhor ou que o conhecem pouco estão longe de provocar a cólera do seu Pai e a sua como as dos infelizes que abusaram das graças de eleição. No entanto, apesar da ofensa feita ao seu Pai, apesar do desprezo que lhe atinge no Coração, ama estes infelizes, quereria salvá-los. Sim, apesar das torturas que infligem ao seu coração, quereria conduzi-los a si: Nolo mortem peccatoris sed ut magis convertatur et vivat. Não quer a sua morte, mas que se convertam. Por isso é preciso aplacar o seu Pai irritado, é preciso aplacar a sua justiça que está em luta com a misericórdia do Coração de Jesus .
Padres simplesmente correctos, fiéis simplesmente exactos nos seus deveres podem obter para si mesmos as graças necessárias e salvar a sua alma, mas são impotentes para dar a Nosso Senhor a compensação de que o seu coração tem sede para apagar a ingratidão dos outros. O seu olhar detém-se sobre eles com satisfação, mas não encontra nas suas obras a reparação que procura para as ofensas que lhe são mais sensíveis.

SEGUNDO PONTO: Nosso Senhor espera consoladores generosos. – Quereria que ao lado do abismo de amarguras no qual certas ingratidões mergulham o seu Coração, almas generosas formassem um exército de eleição onde o seu Coração encontrasse uma superabundância de amor. Além de que este amor consolaria o seu coração, aí ligaria graças de salvação para os ingratos. Quando alguém se dá a Ele com amor, quando alguém consagra especialmente a vida a amá-lo, torna-se nas suas mãos um instrumento de graças.
Glorifica o seu Pai, aplaca a sua cólera, consola-o proporcionando alegrias ao seu Coração. Trabalha também pela salvação dos seus irmãos, porque se torna um canal por onde se compraz em fazer passar as suas graças. Toda a Igreja aproveita com isso.
Se os maus obstruem o canal por onde devem correr os dons de Nosso Senhor, os que são simplesmente fiéis não podem suprir a isso. Fazem o que é preciso para si mesmos, não recebem a superabundância que seria necessária para suprir aos outros. É por isso que Nosso Senhor pede corações que o amem generosamente e que façam do seu amor o fim mesmo das suas vidas.
Quer estabelecer o reino do seu amor para a salvação do seu povo. Mas para que o seu Coração reine sobre a massa dos fiéis, é preciso primeiro que reine sobre os seus condutores, os padres, as almas consagradas, os educadores, os homens de obras.
Pede um grupo de amigos que o consolem e que, tendo-o colocado nos seus corações, o comuniquem depois aos outros.

TERCEIRO PONTO: Os apóstolos do Sagrado Coração. – A quem se há-de dirigir primeiro, senão aos seus padres e a todas as almas apostólicas? Não é justo que, devorado pela necessidade de ser amado, pressionado pelo desejo de ser consolado de tantas amarguras, se dirija primeiro àqueles aos quais mais deu? Que aqueles dos seus apóstolos cujo coração não está ressequido compreendam enfim o seu apelo, que se dêem conta das dores com que o oprimem muitos dos seus irmãos os quais, na sua sede, lhe dão vinagre: In siti mea potaverunt me aceto.
Que estes corações ainda sensíveis a um sentimento de afeição por Nosso Senhor vão ter com Ele na sua simplicidade, dando-se-lhe inteiramente: In simplicitate cordis mei obtuli universa. Dar-se a Nosso Senhor como Ele se deu ao seu Pai por nós, como a todos se dá no sacramento do altar, tal é a primeira condição a cumprir para entrar na via do amor.
O amor não pode desenvolver-se nos corações egoístas e frios. A generosidade é a condição do amor verdadeiro. Recordemo-nos das palavras de Nosso Senhor a Margarida Maria. Dizia-lhe: «Participa nas amarguras do meu Coração, derrama lágrimas sobre a insensibilidade destes corações que tinha escolhido para os consagrar ao meu amor. Venho ao coração que te dei, para que pelo seu ardor tu repares as injúrias que recebi destes corações tíbios e lassos que me desonram. Esta alma que te dei, oferecê-la-ás a Deus meu Pai, para desviar as penas que estas almas infiéis mereceram... Farás isso pelo meu povo escolhido».
Consideremos como dito a nós mesmos o que Nosso Senhor dizia ainda a Margarida Maria acerca do apostolado do seu amor:
«Quero que me sirvas de instrumento para atrair todos os corações ao meu amor».
Eis o ideal da nossa vida: reparar muito, muito, para que isso baste pela nossa alma e por outras almas que Nosso Senhor quer salvar por nosso meio; amar muito também para que o nosso amor nos dê influência sobre o Coração de Jesus e para que inspire o nosso zelo no apostolado que temos para fazer.

Resolução. – Senhor, a quem vos dirigis? A um pecador cuja indignidade é capaz de impedir o cumprimento dos vossos desígnios! Supri a tudo o que me falta; abrasai o meu coração com os vossos santos ardores. Renuncio a todas as minhas afeições que não estão no amor nem na afeição do vosso Coração.
Colóquio com o Coração ofendido de Jesus.