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O AMOR CONVERTE OS
CORAÇÕES E DÁ A PAZ
João
Paulo II completaria em maio 85 anos. Partiu para a
casa do Pai na noite de sábado, 02 de abril de 2005,
às 21,37 horas (16,37 horas de Brasília). Ele havia
preparado uma mensagem para que fosse lida na hora
do “Regina Caeli”, no Domingo da Misericórdia,
segundo domingo da Páscoa.
Há dias estou
tentando escrever algo, mas um verdadeiro turbilhão
de idéias que me passa pela cabeça está tornando
quase impossível esta tarefa. Aliás, não é bem uma
tarefa é uma necessidade que vem de dentro, de dizer
algo sobre alguém que foi o Papa, o chefe, mas,
acima de tudo, o pai, o amigo, o inspirador, alguém
muito próximo que dizia com suas palavras, seus
escritos e, sobretudo, com a sua vida o que nós
também somos chamados a viver neste caminho de
seguimento de Cristo na vida religiosa do Coração de
Cristo. Foi também o grande incentivador da causa de
beatificação do Padre Dehon. Por isso mesmo, eu
rezava e torcia para que o Papa vivesse um pouquinho
mais e pudesse não só presidir a cerimônia da
beatificação, mas ter a alegria de nos dar este
presente.
Já em sua terra
natal era muito amigo de nossos padres, conviveu
bastante com confrades nossos e foi amigo até o fim
de sua vida. O padre Nagy, amigo de longa data,
costumava passar, todos os anos, de quinze a vinte
dias em Castelgandolfo, durante as férias de verão.
Dizem que após receber o chapéu cardinalício (já bem
além dos 80 anos) teria perguntado ao Papa: “E
agora, o que eu faço como cardeal?”. “Venha me
visitar de vez em quando”, teria respondido o Papa.
Parece que queria o amigo por perto, principalmente
nesta fase decisiva e sofrida, nos últimos anos de
sua vida aqui na terra.
Um outro fato
que recordo e que marcou a todos nós sacerdotes do
Coração de Jesus, presentes em Roma, durante
Capítulo Geral de 2003. João Paulo II acabava de
voltar da Croácia. No dia seguinte tivemos a
audiência. Éramos nada menos de 130 religiosos.
Estava cansado e doente, mas permaneceu ali firme e
sereno o tempo todo. Normalmente (devido às suas
condições de saúde), no final das audiências, João
Paulo II saudava apenas as pessoas que estavam nas
duas primeiras filas da frente. Mas ele fez questão
de dizer que queria cumprimentar a todos. Como se
tratava dos padres dehonianos, ele queria saudar a
todos. E ficou ali, muito tranqüilo, e queria dizer
ao menos uma palavrinha para cada um. Foi a última
foto que bati ao seu lado e a guardo com muito
carinho, porque foi possível, somente, devido a sua
grande amizade pela Congregação e lhe custou um bom
sacrifício.
Da sua Polônia
sofrida, de sua própria experiência de vida, do seu
contato com a espiritualidade do Coração de Jesus,
da mensagem de Irmã Faustina, ele aprendeu a olhar o
mundo com o olhar de misericórdia, de perdão. Ele
havia aprendido que as trevas não podem ser
dissipadas senão pela luz. O ódio não é vencido
senão pelo amor. Lutava pela justiça, mas afirmava
que só o amor e o amor misericordioso faz verdadeira
justiça ao homem e é capaz de devolver o homem a si
mesmo (cf DM).
Justiça e
perdão foram o seu programa de vida. No dia 1º de
janeiro de 2002, durante a missa, ele volta a
repetir: “Justiça e perdão: eis os dois pilares que
eu quis pôr
em evidência. Entre justiça e
perdão não há contraposição, mas complementaridade,
porque ambos são essenciais para a promoção da paz.
Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão”.
Por esta paz, Karol
viajou e viajou e voltou a viajar. Esteve em mais de
120 países, reuniu pessoas de todas as etnias, de
todas as religiões, abraçou culturas diferentes,
beijou o solo, visitou aquele que tentou matá-lo,
pediu perdão pelos erros da Igreja, nos tempos
passados. Abriu todas as portas para o ecumenismo.
Elevou suas preces a Deus pela justiça e pela paz.
Chorou as dores da humanidade, procurou guiar a
Igreja em sua missão de fidelidade a Deus e amor a
todos os homens e mulheres de todas as raças,
línguas e religiões. Queria que todos compreendessem
que somente no amor, no perdão, na misericórdia se
encontra o verdadeiro caminho para a paz. Convidou a
todos a olhar para o Cristo na Cruz. Queria que
todos compreendessem que somente o Cristo, o Filho
de Deus, que morreu na Cruz, pedindo ao Pai que
perdoasse aos que o crucificaram, tinha rompido a
corrente da vingança, do ódio, da morte. E dizia que
o AMOR do Cristo que morre na cruz, perdoando,
introduziu neste mundo um amor mais forte do que
morte, mais forte do que o pecado.
E,
referindo-se à mensagem da Ir. Faustina, o Papa
lembrava que ‘a humanidade não encontrará a paz até
que se dirija com confiança à misericórdia divina’.
E afirmava que a misericórdia divina é o verdadeiro
dom pascal que a Igreja recebe do Cristo
ressuscitado e oferece à humanidade, neste início do
terceiro milênio (Domingo da misericórdia, 22 de
abril de 2001). Dizia, ainda, que a certeza da
misericórdia divina será para nós a única
possibilidade de enfrentar, com confiança, as
dificuldades e provas que esperam o gênero humano
nestes próximos anos
(cf. Homilia de
30.04.2000 – Canonização da Ir. Faustina
Kowalska).
Pouco antes de
partir João Paulo II havia preparado uma mensagem
para ser lida no Domingo da Misericórdia
(03.04.2005). Não pôde fazê-lo pessoalmente. Mas não
pode deixar de chamar a atenção o fato de que o Papa
da misericórdia morreu exatamente na Festa da
Misericórdia. Sabemos que às 20,00 horas, no quarto
do Papa, começou a Santa Missa da festividade da
Divina Misericórdia. A missa foi presidida pelo
arcebispo Stanislaw Dziwisz, secretário particular
de João Paulo II, e assistida pelo cardeal polonês
Marian Jaworski, e os monsenhores Stanislaw Rylko e
Mieczslaw Mokrzycki, o outro secretário do Papa.
Durante a Missa, o Papa recebeu o Viático e mais uma
vez a Unção dos Enfermos.
Pouco depois,
às 21,37 horas, João Paulo II partia ao encontro
daquele que ele ensinou a amar. Foi ao encontro
daquele que sempre apresentou como a “própria
misericórdia”. No Coração de Cristo se revela a
misericórdia do Pai; Ele é em certo sentido e no
verdadeiro sentido a própria misericórdia.
E a sua última
mensagem, que ele tanto teria desejado ler no dia
seguinte, foi ouvida por uma verdadeira multidão de
pessoas, em Roma e no mundo inteiro. Será muito
difícil esquecer aquelas palavras, diria quase um
testamento, lidas pelo arcebispo Leonardo Sandri,
substituto da Secretaria de Estado, após a
celebração eucarística em sufrágio por João Paulo
II, presidida pelo cardeal Ângelo Sodano:
“Meus queridos
irmãos e irmãs!
1.
Ressoa, também hoje, o alegre Aleluia da Páscoa. A
passagem do Evangelho de João, que lemos na missa
deste domingo, sublinha que o Ressuscitado, na noite
do dia de hoje, apareceu aos Apóstolos e ‘lhes
mostrou as mãos e o lado’ (Jo. 20,20), ou seja,
Jesus mostrou-lhes os sinais da dolorosa paixão,
impressos de maneira indelével em seu corpo, também
depois da Ressurreição.
Aquelas chagas
gloriosas, que oito dias depois o incrédulo Tomé
teve que tocar (Jesus o convidou a tocar), revelam a
misericórdia de Deus que “tanto amou o mundo que lhe
deu o Filho Único” (Jo 3,16). Este mistério de amor
está no coração da liturgia de hoje, o Domingo
Branco (Dominica in albis), dedicado ao culto da
Divina Misericórdia.
2.
À humanidade que, em certas ocasiões, parece como
que perdida e dominada pelo poder do mal, do egoísmo
e do medo, o Senhor Ressuscitado oferece, como dom,
seu amor que perdoa, reconcilia e volta a abrir o
espírito à esperança. É o amor que converte os
corações e dá a paz. Quanta necessidade
tem o mundo de compreender e acolher a Divina
Misericórdia!
3.
A Solenidade litúrgica da
Anunciação, que celebraremos amanhã, leva-nos a
contemplar com os olhos de Maria o imenso mistério
deste amor misericordioso que surge do Coração de
Cristo. Com sua ajuda, podemos compreender o
autêntico sentido da alegria pascal, que se funda
nesta certeza: Aquele que a Virgem levou em seu
seio, que sofreu e morreu por nós, ressuscitou
verdadeiramente. Aleluia!”.
P. Francisco Sehnem,
scj
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