Sobre a Devoção ao Coração de Jesus
| |
Lendo os
Evangelhos percebemos que,
no entender do próprio
Jesus, a vida eterna e, por
isso mesmo, toda a vida
cristã consiste em conhecer
o Pai e a Ele (Jesus
Cristo). Então vale a pena
aprofundar este conhecimento
feito de fé e de amor pela
pessoa de Jesus (cf. Jo
17,3). Era também esta a
grande prece que Paulo fazia
por seus irmãos de Éfeso (Ef
3, 14-19).
Fala-se em culto, devoção e
espiritualidade do Coração
de Jesus. Vamos tentar
entender o que significa
cada um deles. Vamos tentar
compreender também o que
queremos dizer com a
expressão ‘Coração de
Jesus’.
O que se entende por
culto?
A palavra culto deriva de um
verbo latino (colere) e
significa ter o cuidado de
cultivar. O culto é a
veneração que se tem por um
ser ou uma pessoa, uma
atitude interna feita não só
de admiração, de estima e de
honra, mas também de
humildade, de entrega, de
submissão.
Quando falamos em ‘culto
religioso’, devemos lembrar
que ele estabelece um
relacionamento entre Deus e
a pessoa humana; entre Deus
que se revela, se doa e a
pessoa humana que responde a
Deus com serviço e amor.
O culto é, antes de tudo,
interno, mas pode e deve
expressar-se em atos
externos. Aqui entram nossas
orações pessoais,
comunitárias, nossas
celebrações litúrgicas com
que respondemos ao amor do
Coração de Jesus por nós.
O que entendemos por
espiritualidade?
Espiritualidade é um termo
muito usado hoje. Indica o
espírito de uma coisa, um
estilo de vida, uma
mentalidade; é uma maneira
de ser e agir. Falamos,
assim, de espiritualidade
sacerdotal, conjugal,
franciscana, dehoniana,
espiritualidade do século
XIX...
Falando em espiritualidade
do Coração de Jesus,
pensamos numa maneira de
ser, num estilo de vida que
deve ter uma pessoa que
acredita no amor de seu Deus
e que fez até a experiência
do grande amor que o Pai e o
Coração de Jesus têm por ele
(ela). Pensamos na vida que
leva uma pessoa que acolheu
em si o Espírito do Amor e
se une ao Coração de Cristo
nesta grande obra de
redenção dos seus irmãos(ãs),
por amor.
O que entendemos por
devoção?
Devoção é uma palavra
ambígua; pode ter vários
sentidos. Aqui nós não a
tomamos no sentido de uma
‘prática piedosa’, nem no
sentido de ‘fervor’ ou de
‘consolação espiritual’
(como falamos de oração: Eu
senti muita devoção, rezei
com muita devoção).
O sentido que damos, aqui, à
palavra devoção é aquela
tirada dos escritos de Santo
Tomás: “A prontidão habitual
da vontade nas coisas que se
referem ao serviço de Deus”.
Significa, então, uma
disposição permanente e
pronta em nossa entrega a
Deus. Devoção é, aqui, quase
sinônimo de Consagração.
Seria, então, uma resposta
de amor ao amor de Cristo,
consagrando-se a Ele.
Cristo, por amor, deu a vida
por nós (cf 1Jo 3, 16) e nos
associou aos mistérios de
sua vida (cf 1Pd 2, 9).
Portanto, é necessário que
respondamos a Ele, com o
nosso amor. Isto é ser
devoto do Coração de Jesus.
O que significa e
expressão ‘Coração de
Jesus’?
Comecemos pelo simbolismo do
‘CORAÇÃO’. Em nosso
linguajar, o coração é o
símbolo natural do amor. Não
porque este órgão físico
produza o amor, mas porque
no coração repercute, de
modo maravilhoso toda a gama
de manifestações afetivas
que, em nós, está
relacionada com o amor.
O Concílio Vaticano II usa,
também, o símbolo do coração
ao falar do amor de Cristo:
“O Filho do Homem, com sua
encarnação, uniu-se a todo
homem. Trabalhou com mãos de
homem, pensou com
inteligência de homem,
trabalhou com vontade de
homem, AMOU COM CORAÇÃO DE
HOMEM” (GS 32).
Com a expressão ‘Coração de
Jesus’ entendemos a própria
Pessoa de Jesus, o seu
aspecto mais nobre, mais
atraente para nós: o AMOR,
síntese e foco unificador de
toda a vida, de toda a obra
e de toda a Pessoa de Jesus.
A devoção ao Coração de
Jesus venera o amor humano
do Filho de Deus Encarnado.
Lembra Jesus que nos ama com
amor humano e, por isso, nós
sentimos nosso Deus muito
próximo de nós, caminhando
ao nosso lado.
Mas, a devoção ao Coração de
Jesus venera não só o amor
humano de Jesus. Lembra e
venera, também, o seu amor
divino. Quando dizemos
Coração de Jesus (ou Coração
de Cristo), queremos
significar a Pessoa de Jesus
Cristo, enquanto é, na sua
Pessoa e na sua vida, a
máxima manifestação do amor
divino-humano com que Jesus
Cristo nos amou e nos ama.
Pio XII escrevia: “O Coração
de Jesus é o Coração de uma
Pessoa divina, ou seja, do
Verbo Encarnado e, por isso,
representa e, por assim
dizer, nos põe diante dos
olhos todo o amor que Ele
teve e ainda tem por todos
nós. Portanto, fácil é
concluir que, em sua
essência, o culto ao Coração
de Jesus é o culto ao amor
com que Deus nos amou por
meio de Jesus e, ao mesmo
tempo, a prática do nosso
amor para com Deus e o
próximo” (H. A. in AAS 48,
344s).
E João Paulo II nos lembra
que, na Pessoa de Jesus
Cristo, se revela também o
amor misericordioso do Pai
para com a humanidade. O
Coração de Jesus será então,
também, o amor
misericordioso do Pai que,
em Cristo, se revela e se
doa totalmente a nós.
E a melhor forma de sermos
devotos do Coração de Jesus
no mundo de hoje será levar
esta misericórdia do Coração
de nosso Deus aos nossos
irmãos e irmãs,
principalmente aos pobres,
oprimidos, esquecidos,
marginalizados; é ser
misericórdia do Coração de
Jesus para todos eles e
tentar reconstruir neles o
rosto, o projeto de Deus.
P. Francisco Sehnem, scj |
|
|
|
|
|